Faróis e Radioamadores - Núcleo de Radioamadores da Armada

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Faróis e Radioamadores

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Faróis e Radioamadores

Antes de abordar ainda que ligeiramente o tema em título gostaria de iniciar o texto, assim em jeito de introdução, com algumas referências históricas sobre os eternos vigilantes da salgada escuridão dos oceanos, que são os nossos muito venerados Faróis. E começaria, com base em conhecimento próprio e em informações avulsas dispersamente disponibilizadas, por referir o que de muitos de nós é sabido. Não é pois novidade que sob as mais variadas formas, os Faróis vem desde a antiguidade, tendo surgido pela necessidade sentida pelos navegantes de beneficiarem de um modelo de sinalização que os alumiasse ao longo dos vários pontos da costa, fosse para sinalizar esses pontos, fosse para sinalizar passagens seguras para os seus navios.

O farol mais antigo de que há conhecimento é o Farol de Alexandria. Situado na ilha de Pharos, uma pequena ilha na margem ocidental do Delta do Nilo, de cujo nome deriva a palavra Farol ou Pharo. A majestosa torre em mármore deste Farol foi ali edificada por volta de 280 a.c. com uma altura de 135 metros a qual para além de orientar a navegação mediterrância na área, até um alcance aproximado de 100NM, era também símbolo do poder da dinastia de Ptolomeu I. Foi por duradouro tempo a mais alta construção humana tendo permanecido intacta durante vários séculos até que a sua gradual degradação não deixou que em 1326 D.C. resistisse a um forte abalo telúrico.

Actualmente o Farol mais antigo do mundo, ainda em funcionamento, consta que é o Farol da Corunha, conhecido também por Torre de Hércules. Construído por volta do ano 100 D.C. tinha além da sua função de alumiar os navegantes a tarefa de a partir da sua torre de 57 metros vigiar a Cidade (La Corunha). Apesar do fim do ipmério romano, e pese embora alguns efeitos da degradação, o Farol manteve a sua importância, mesmo de luz apagada, servindo como referência diurna aos navegantes da época, vindo a ser reconstruído na segunda metade do sec XVII.
Em Portugal, até 1520 não existiam quaisquer faróis. Eram em muitos casos iniciativas de carácter particular que acendiam fogueiras em lugares estratégicos junto da costa, em geral comunidades religiosas em mosteiros e conventos ou confrarias marítimas situadas proximo da costa, com o objectivo de alumiar e avisar os navegantes portugueses. Há todavia indícios da existência de um Farol no Cabo de S. Vicente, na torre do Convento de S. Francisco, num tempo anterior àquela data.
Se é certo que os primeiros faróis a cargo do Estado, – Farol da Guia em Cascais  e Farol N. Sra. da Luz no Porto -  foram construídos por volta de 1761, não é menos certo que nos arquipélagos da Madeira e dos Açores, o primeiro Farol a ser construido foi o de Porto Santo em 1900 e o da Ponta de S. Lourenço em 1870.
Mas é de 1528 que data a edificação do mais antigo Farol Português, então situado na Cantareira, próximo da barra do Douro, o qual haveria de ser  desactivado em meados do Sec XVII ficando a funcionar sómente como Capela.
Já no Sec XVIII, no reinado de D. José, teve início o programa de alumiamento da costa portuguesa e é em 1758 que o seu ministro Sebastião José de Carvalho e Melo por alvará régio do mesmo ano, centralizou na então Junta de Comércio, o programa de construção e manutenção dos faróis e lançou um programa, tido como ambicioso, de contrução de novos faróis o qual haveria de se estender pelas décadas seguintes.

Em 1892 a gestão dos faróis, que ao tempo estava sob tutela da Direcção Geral dos Correios, Telégrafos e Faróis, passou para a Marinha, onde se mantém desde 1927 entregue à Direcção de Faróis sob tutela da Autoridade Marítima contando com um inventário de mais de 40 faróis a alumiar em breu e tempestade e cujos edifícos embelezam a nossa costa e enriquecem o nosso património artístico e histórico-naval edificado.

O interesse radioamadorístico pelas actividades a bordo dos Faróis
É entendimento comum de que de um Farol, de entre toda a sua simbologia,  ressalta a união constituída entre a terra e o mar. Um compromisso indissociável entre pescadores, marinheiros, navegadores de recreio ou traficantes, e estes conselheiros luminosos que ao longo de décadas, séculos mesmo, se mantém alerta na ajuda àqueles navegantes. Os seus flashs teimando na sobreposição às adversas condições atmosféricas e estado do mar, permanecem no seu aviso luminoso como que a gritar “aqui há terra”, facilidadde de abrigo ou perigo de encalhe.
Simboliza ainda a esperança, ilumina o espírito e a eternidade da alma, indica o caminho e a direcção certa no percurso da vida. Ele é protecção, é segurança, fé e inspiração. É enfim um vigia da vida!
Este conjunto de conotações fazem do Farol uma entidade a todos os níveis admirável, inspiradora de respeito e veneração e é talvez neste contexto que nasce a paixão entre o radioamador e o Farol. Não foi certamente por acaso que, conforme consta no portal do International Lighthouse Lightship Weekend, numa certa noite de inverno dois elementos de uma associação escocesa de radioamadores, John GM4OOU e Mike GM4SUC, depois de uma reunião associativa decidiram criar um evento de verão num lugar incomum onde os membros da associação pudessem simultâneamente gozar de um aprazível dia Agosto e desfrutar dos prazeres da comunicação radio. Para o efeito, entre portos, aeroportos, lugares históricos, castelos, faróis etc, a opção foi naturalmente pelos Faróis.
Obtida a autorização para instalar a estação de radio junto aos Faróis foram convidadas outras associações de radioamadores para se juntarem ao evento que haveria de se chamar the Northern Lighthouse Activity Weekend. O evento previa a instalação de uma estaçao de radioamador a bordo ou contíngua a um Farol e propunha o terceiro fim de semana de Agosto como data ideal.
Naquele primeiro ano houve 11 estações em outros tantos Faróis tendo cada uma delas, diz-se no portal, efectuado sensivelmente 750 QSO’s nas bandas de HF durante o fim de semana.
Nos anos seguintes juntaram-se, primeiro outras associações escocesas de radioamadores, depois foram as estações dinamarquesas a aderir e rapidamente a Alemanha, Africa do Sul França etc. aderiram ao evento de tal modo que o nome cedo viria a ser alterado para uma versão mais abrangente. Nascia então o actual ILLW ou seja o International Lighthouse Lightship Weekend.
Este, entre nós chamado fim de semana dos Faróis, tornou-se num evento com lugar marcado no calendário, a acontecer anualmente durante o terceiro fim de semana de Agosto.
Lentamente as adesões foram surgindo e em 1999 entre Faróis e Navios-Farol eram já 204 as estações em activação em 36 países. Actualmente os números dizem que tomam parte no ILLW cerca de 450 Faróis/Estações em mais de 50 países.
Diz-se ainda no portal do ILLW que a principal razão do sucesso e popularidade do evento assenta no facto de ele não ser um Concurso. Na verdade trata-se unicamente de um fim de semana diferente. Sem a pressão dos scores, as regras são simples e o onus recai no operador que ao propor-se participar deve embeber-se do fragrância de que se reveste aquele fim de semana ou seja um espírito de diversão, relax, convívio hertziano e sobretudo na exposição do radioamadorismo e dos Faróis ao público, razão pela qual a estação de amador deve ficar tão próximo quanto possível do Farol.
No ILLW não há prémios nem quaisquer certificados. O operador decide quando e por quanto tempo operar. Decide as bandas que mais lhe convier. Não há restrições de antenas ou de potência. A ideia é que os operadores, sem qualquer pressão, se divirtam enquanto vão contactando o máximo de estações que conseguirem. É recomendado que as estações tenham o tempo necessário para trabalhar outros faróis bem como aqueles operadores cuja velocidade de operação é baixa ou aqueles com menos experiência de operação e obviamente também as estações QRP.
Com o crescer da paixão entre os radioamadores e os Faróis, o interesse pelo ILLW, associado naturalmente ao prazer de operar a sua estação a bordo dos Faróis, cresceu também. Em consequência alguns países – como é o caso de Portugal - criaram as suas próprias actividades farólicas nomeadamente a corrida pela obtenção de vários graus de Diploma relacionados com a activação dos Faróis. A essas actividades haveria de se chamar entre nós, “Activações” para as quais durante muito tempo cresceu e se mantem ainda considerável interesse pela sua concretização. É o caso do Diploma dos Faróis Portugueses, cujo interesse começa a carecer de revitalização.
A este propósito parece de interesse falarmos um pouco sobre o percurso necessário para concretizar a Activação de um Farol ou Farolim.
Importa por isso considerar alguns aspectos antes de avançar com a decisão de activar um Farol ou Farolim.
Assim, perante a pretensão de activar um Farol ou Farolim, devemos em primeiro lugar ponderar sobre o que pretendemos activar e o motivo da activação e de acordo com o resultado dessa ponderação, avaliar se ela merece o esforço ou o prazer de a concretizar. Uma vez tomada a decisão, aconselha o bom senso que deve ser tido em consideração que desde logo fica estabelecido um compromisso moral e ético com a cortesia do QSL Card. Ou seja a necessidade de produzir cartões de QSL de acordo com o resultado da Activação e por conseguinte considerar o seu custo. Algo que deve ser muito bem equacionado. Não nos devemos esquecer que quem nos chama ou responde a uma nossa chamada tem seguramente interesse no contacto e por conseguinte enviará o seu cartão de QSL. Ora manda a ética e o costume que se responda a todos os QSL's recebidos. Mesmo que não tenhamos interesse em coleccionar cartões de QSL seja para DXCC ou para qualquer outro objectivo, lembremo-nos que a ética e a cortesia são valores dos quais não é bonito abdicar e nesse caso devemos estar apetrechados para responder enviando o nosso cartão em resposta ao nosso interlocutor no QSO em causa;
Ao tratar da produção dos cartões de QSL é aconselhável, produzir entre 10 a 15% mais do que o número total de QSO's efectuados na activação.

Uma activação nunca deve ser decidida na véspera ou mesmo oito dias antes da sua ocorrência sob pena de passar despercebida e albergar falhas de preparação.  Por conseguinte um bom planeamento com antecedência bastante, é fundamental. Permite entre outras coisas, termos tempo para organizarmos tudo o que precisamos, nomeadamente pesquisar dados de vária ordem que prevejamos necessários, certificarmo-nos das frequências aconselháveis para a actividade e naturalmente a divulgação do evento a ocorrer.
Actualmente, como muito bem se sabe, os meios ao nosso alcance para publicitar esses ou outros eventos, são bastantes e eficazes. É pois aconselhável utilizá-los!

Devemos procurar saber quais as referências de Diplomas cobertos pela activação a concretizar com vista á sua validação. Para tal devemos consultar os respectivos managers dos Diplomas a fim de sabermos quais as referências abrangidas pela implantação do Farol ou Farolim a activar ou procurar essas listagens que em geral estão disponíveis na internet. Convém que se saiba que entre nós existe variedade bastante de Diplomas possíveis os quais gozam de uma infinidade de referências.
Devemo-nos certificar se para colocar a sua estação no Farol  onde ocorrerá a activação é necessário ou não, obter autorização de alguém ou de alguma entidade ou organismo; Caso seja, teremos que com a devida antecedência, efectuar formalmente esse pedido; No caso dos Faróis é a Direcção de Faróis que pode conceder autorização para as activações, no entanto alguns existem que por não estarem sob tutela da DF, compete a outros organismos deferir autorização;
Não existe um modelo padrão para o efeito. Cada caso é um caso. Mas deveremos ter em conta que é fundamental explicar de forma clara e sucinta, o que pretendemos fazer, mencionar o período da actividade, e eventualmente alguma outra informação que possa ser abonatória da pretensão em causa;

Para que a actividade seja válida devemos informar os managers de que vamos fazer a activação, sob pena dela não servir para nada. Terminada a activação devemos enviar o log aos managers dos Diplomas implicados pelas referencias a validar; Não devemos ficar surpreendidos se em alguns casos for pedido o envio de duas ou três fotografias ilustrativas do acontecimento. A relação de operadores presentes na Activação é outro elemento informativo a enviar ao Manager para que possa também validar a activação em seu nome pessoal.

Uma vez obtidos todos os dados referidos nos parágrafos anteriores, e caso pretendamos usar um ICO para o efeito, devemos fazer o respectivo pedido à ANACOM; (Recorda-se que esse ICO tem validade de sómente sete dias, como se sabe e só é válido durante o período de consignação e após pago;

Caso estejamos a falar de uma activação no âmbito do ILLW, além das sugestões aqui apresentadas acresce a necessidade de inscrever o nosso Farol na lista de participantes para o ano em curso. Para tanto devemos consultar o portal https://illw.net/ separador “Entry Form” e proceder ao preenchimento do formulário através do qual o Farol objecto da nossa activação fica inscrito. Nesse formulario é de todo o interesse deixar a informação sobre a troca de QSL.
Devemos ainda, embora sem carácter de obrigatoriede inscrever o indicativo do nosso Farol no sitio do QRZ.COM onde devemos igualmente colocar toda a informação sobre a activação a ter lugar.
É razoável que esta inscrição aconteça até uma distância temporal de vinte dias antes do evento.

Em certos casos as autorizações concedidas incluem a contrapartida de deixar tudo limpo como dantes ou melhor, ou até mesmo o compromisso de para além de respeitar, não interferir com o normal funcionamento ou actividades que tenham lugar no local onde a activação vai ocorrer.

É costume, após alguns dias, não muitos, enviar uma carta ou uma mensagem electrónica à entidade tutelar manifestando o agradecimento pelas facilidades concedidas, quando for caso disso, referir a boa colaboração de alguém que possa ter estado responsável por algum tipo de apoio em seu favor, para e durante a actividade.

É aconselhável a produção de um modelo de Matriz na qual conste toda a informação relativa à activação que se vai efectuar. Isso permite aos interessados nos diplomas com referências validadas obter todos os dados respeitantes à obtenção do Diploma perseguido.

Ao procedermos assim estamos garantidamente, nesta vertente, a dignificar a actividade radioamadorística, a contribuir para divulgação e conhecimento do nosso património historico.


Texto de divulgação sem fins lucrativos e criação, tradução e adaptação de António Gamito
Com referencias:
Wikipedia; Lista de Faróis do Instituto Hidrografico; Blogoesfera; Portal do ILLW;


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